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terça-feira, 20 de março de 2012

Menina.

A menina está sentada sozinha no banco da praça. A menina que ouve canções de bossa nova. A menina que vive num mundo paralelo. A menina que se veste bem e faz teatro. A menina felizmente desencontrada. Aquela do tênis antigo, da beleza misteriosa, do sorriso escondido. A filha querida do papai, a menina da vovó. É a mesma menina que se apaixonou.

E agora ela ouve suas canções, que ganharam novos sentidos. Agora ela entendia tudo e lia perfeitamente nas entrelinhas. Agora ela entendia a luz das estrelas, gostava do arder do sol e admirava o tamanho da lua. Sentia-se igualmente cheia e em algumas situações, minguando também. Descobriu-se solidária com a dor do mundo. O amor lhe fazia bem.

Uma corrente de sentimentos a invadia dia após dia. Como se seu corpo tivesse virado moradia para um arco-íris. Cada cor com sua dor, cada qual com sua essência. Sua cabeça pesou, seu coração apesar de bondoso, chorou. Apaixonar-se não foi fácil, nem mesmo pra menina dos cabelos cacheados.

A menina chora no travesseiro baixo pra ninguém ouvir. A menina que evita cruzar com certos olhares. A menina que se sente sozinha nas noites do fim de semana. A menina que não quer mais romantismo nem mesmo nas suas músicas, mas que ouve apenas pra torturar seu pobre coração. A menina que não quer multidão, pois se acostumou com a solidão. É a mesma menina que se desencontrou.

E a culpa não era dela. A menina estava completamente apaixonada. A culpa era dele, por se apaixonar tão somente, infelizmente, pela ideia de estar apaixonado.

domingo, 1 de maio de 2011

Trouble.


Ela estava tão cansada da vida, que se perguntou se deveria estar nela mesmo. Sempre tinha esses ataques, umas crises existências terríveis e chatíssimas pra quem tinha que aguentar. O namorado, que agora carregava o prefixo “ex” não aguentou.
Tomar remédios não adiantava mais mesmo, acabou por se acostumar com eles. “Vaso ruim não quebra”. Não é o que dizem?
Vomitava, não comia e ainda insistia nos remédios. Porém nunca tentou suicídio, ou um dano menos relevante, porém não menos pior e por isso se achava covarde. Até aquele exato momento, que em punho segurava uma gilete que tremia freneticamente em sua mão suada.
A porta do banheiro estava encostada, não havia ninguém em casa. Porém, se desse sorte e se assim fosse o destino, alguém lhe acharia antes dar o último suspiro. No fundo ela queria que a achassem. Queria morrer não querendo. Amava um drama. Queria atenção.
Chegou com a gilete bem perto de seu pulso que pulsava rápido. Estava com sua adrenalina em alta, seu corpo entorpecido por um nervosismo incontrolável. Era aquela hora ou nunca mais, pois não teria todo o tempo para ponderar a situação como teve. Fechou os olhos com força, como se aquilo fosse amenizar a dor.
- Filha, cheguei! - Sua mãe gritou da cozinha. - Eu trouxe o jantar.
Caiu no chão sem forças nas pernas, largando o objeto cortante. Esteve tão perto, agora estava tudo longe novamente. A luz que devia ver ao chegar no paraíso estava há mil anos luz de distância. Se sentiu mais uma vez covarde, quis gritar. Se calou.
Quando se levantou – quando conseguiu – lavou o rosto e se livrou dos vestígios de sua experiência de quase morte.
Foi jantar com sua mãe e depois vomitou, apenas pra não se sentir tão covarde. Mal sabendo que aquilo tudo era a maior prova de covardia que podia ter, não encarando a vida como ela realmente é, se escondendo atrás de artifícios que faziam sua vida cada dia pior.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Catrina.

Acordou no dia trinta e um de dezembro com um propósito mal acertado. Queria poder parar de errar no ano novo. Olhou para os lados e tudo o que viu foi uma mesma decoração mal acabada, que por falta de dinheiro era obrigada a encarar. Trabalho, esse seria o primeiro item de sua lista imaginária do que queria cumprir. Envergonhava-se toda vez que ia ao banco buscar sua mesada, lhe parecia idiota a idéia de sair de casa e depender dos pais. E de fato era.
Ao tentar pensar na segunda, várias coisas lhe vieram ao mesmo tempo e tateou no criado mudo seu maço de cigarros. Há meses tentou parar de fumar, mas já havia desistido, uma vez que lhe era um vício e sabia que contra seus vícios, ela não podia. E também porque a nicotina lhe acalmava, normal. Tratou de não gastar linhas de sua lista imaginária com isso. Acendeu um cigarro. A fumaça fedorenta lhe fez lembrar suas noites de diversão e concluiu que sem seus amores de uma noite só não podia ficar, outro vício. Necessitava de uma porcentagem de vadiagem, não tinha uma explicação aparente pra isso e ao lembrar-se da infância na igreja, se julgava, mas só até o primeiro gole de uma bebida forte. Não podia contra suas vontades.
Acabando por se achar idiota, se rendeu. Não queria mais listas, nem mesmo trabalho – seu primeiro item. Refletiu sobre felicidade e por mais que quisesse mudar uma coisa aqui, outra ali, se via bem, era acomodada. Portanto decidiu que estaria disposta a errar quantas vezes fosse preciso, se como consequência tivesse a mesma vida do ano que estava por se acabar.
Cigarros, vadiagem, bebidas, falsos amores, falta do que fazer... Assim ela era feliz, assim ela queria o ano novo. E sem objeções feitas a si mesma, virou pro canto e viu um corpo lívido dormindo calmamente. Levantou-se, trocou-se e foi-se embora daquele motel de esquina.
Aquela era a vida dela, era o que ela queria, seja lá quantos anos pudessem se passar.
E toda noite, mesmo na virada, adentrava aquele bar, ali sim tinha um propósito bem definido. Cada noite com um nome diferente, naquela noite, Catrina, como o furacão.